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E no meio do caminho...
O Suicídio?

(Manual antimanicomial pela vida & saúde mental de crianças e adolescentes)









Realização:

Dasdoida[2] 

Coordenação: Julia Catunda

Pesquisa e edição: Julia Catunda, Judith Zuquim e Luna Alkalay













Sumário


É URGENTE FALAR SOBRE SUICÍDIO NA INFÂNCIA E JUVENTUDE

FALAR SOBRE SUICÍDIO COM CRIANÇAS E ADOLESCENTES É TABU

ESTATÍSTICAS SOBRE O SUICÍDIO

CORDEL DO SUICÍDIO

CRIANÇA, ADOLESCÊNCIA E DESIGUALDADE

DICA  01:

SUICÍDIO, VULNERABILIDADE SOCIAL E SAÚDE MENTA

DICA 02:

PARA A DISCUSSÃO 

RELIGIÃO

PSICANÁLISE:

MARX E DURKHEIM

DICA 03

DICA 04

FALAR SOBRE O PROJETO DE VIDA EM TODAS AS INSTÂNCIAS

O SUJEITO EM TRANSIÇÃO: ADOLESCÊNCIA E SUICÍDIO

O DIREITO À SAÚDE MENTAL DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES 

NORMATIVAS SOBRE DIREITOS DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES

VIOLÊNCIAS CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES

O PAPEL DA REDE DE PROTEÇÃO E QUAIS SSEUS ALERTAS

A REDE DE SAÚDE PROTETIVA

O QUE FAZER?

ESTRATÉGAS

INDICAÇÃO DE LEITURA







É URGENTE FALAR SOBRE SUICÍDIO NA INFÂNCIA E JUVENTUDE!


O suicídio na infância e juventude é um fim antes do meio. É um episódio complexo, mas não é  indecifrável; multifacetado, mas passível de reconhecimento, que mobiliza diferentes experiências afetivas e cognitivas, subjetivas e intersubjetivas.  Um desfecho cego para a pessoa que se pensa incapaz de dominar uma situação insuportável e, nesse sentido, tem a certeza de que não pode sair dela. Desespera-se pela falta de controle sobre o cenário em que vive; enfim, é o momento quando parece nítido que todas as maneiras de agir fracassaram. Assim o suicida percebe o mundo, pensa e interpreta suas experiências internas e externas. Ainda que a maior parte dos suicídios acontecem na idade adulta, as crianças e adolescentes também se suicidam, e o número de casos nesta faixa etária vem aumento. É dessa urgência que veio este manual.


Apesar da complexidade de sua determinação, o suicídio pode ser prevenido com intervenções individuais e coletivas de diagnóstico, atenção, tratamentos como estratégias de cuidado aos transtornos mentais, promoção de apoio socioemocional, limitação de acesso a meios, e principalmente políticas públicas de proteção integral e garantia de direitos de crianças e adolescentes.


Nesse sentido, este Manual tem por objetivo dar voz a várias abordagens do assunto com dicas e estratégias para o enfrentamento ao autoextermínio, além de apontar o quanto o preconceito pode ser nocivo ao retardar as atitudes para lidar com esta difícil questão para o sujeito e para a sociedade.




FALAR SOBRE SUICÍDIO COM CRIANÇAS E ADOLESCENTES É TABU!


No seu modo de pensar, a criança não admite a existência do acaso, já que relaciona todos os eventos às suas próprias experiências. Nessa fase, a ideia de morte é limitada e não envolve uma emoção especial, como no adulto. Porém, o pensamento mágico vai sendo substituído pelo lógico e a morte deixa de ser vista como processo reversível e torna-se uma ideia de processo irreversível de deterioração do corpo, uma ideia de fim; sem preocupação ainda com o que virá após esse fim. Numa etapa seguinte surge a preocupação com a vida após a morte. O adolescente entra no mundo através de profundas alterações no seu corpo, deixando para trás a infância e é lançado num mundo desconhecido de novas relações com os pais, com o grupo de sua idade e com o mundo social e simbólico.


Na pandemia de Covid19, as restrições sanitárias trouxeram muitas mudanças como, por exemplo, aulas e trabalho na forma remota, distanciamento social com isolamento familiar, falta de lazer, notícias negativas, disputas políticas, crise de vacinas, crises domésticas, aumentando dessa forma as incertezas sobre as relações entre as pessoas, com o ambiente e o futuro. Invadido por forte angústia, confusão e sentimento de que ninguém o entende, a criança ou o adolescente pode se sentir sozinho e incapaz de decidir em certos cenários. Isso pode ocorrer se o adolescente estiver em grupo familiar também em crise (e/ou em situação de extrema vulnerabilidade social), por relação conflituosa dos pais, violência doméstica, alcoolismo ou doença mental na família, por doença física ou morte de pessoa próxima, além de outros fatores sociais.



“invadido por forte angústia, confusão e sentimento de que ninguém o entende, o adolescente pode se sentir sozinho e incapaz de decidir sobre seu futuro”

ESTATÍSTICAS SOBRE O SUICÍDIO


- Há no mundo quase um milhão de suicídios por ano, e chega a ser a terceira causa de morte entre  15 e 29 anos de idade, sendo que o Brasil ocupa o oitavo lugar no número de incidências.  De 2010 a 2019 houve aumento de 43% no número de mortes por suicídio (9.454 em 2010 e 13.523 em 2019), com aumento maior (de 29%) nas taxas de suicídio de mulheres que de homens (26%) em todas as faixas etárias. Destaca-se nesse período um aumento pronunciado de 81% nas taxas de mortalidade de adolescentes, passando de 606 óbitos para 1.022 (3,5 mortes por 100.000 hab. para 6,4 mortes por 100.000 habitantes).

- Há também o aumento das mortes por suicídio em menores de 14 anos. Entre 2010 e 2013 houve aumento de 113%, passando de 0,3 mortes por 100.000 hab. para 0,7 por 100.000 habitantes. Com relação às regiões do país, em 2019 observou-se que as regiões Sul, Norte e Centro-Oeste apresentaram as maiores taxas de mortalidade de adolescentes de 15 a 19 anos com incremento percentual das taxas de suicídio entre 2010 e 2019 respectivamente de 99%, 90% e 99%. Nesse cenário, destaca-se a região Norte, onde o maior risco de morte por suicídio ocorreu entre adolescentes de 15 a 19 anos (9,7 por 100 mil).

- Quanto às lesões autoprovocadas em 2019, 9,8% ocorreram em pessoas com menos de 14 anos, 23,3% em adolescentes de 15 a 19 anos e 46, 3% em jovens de 20 a 29 anos, totalizando quase 80% dos casos. Em relação ao local da ocorrência, evidenciou-se que a maior parte dos casos ocorreu na própria residência das vítimas, 60% dos casos por envenenamento e 16,8% pelos objetos perfurocortantes.



                                              CORDEL DO SUICÍDIO



Pra começo de conversa

Vamos logo entender

Que a tragédia do suicídio

Não podemos esquecer

Vem de diversos fatores

Vamos agora conhecer


Seja transtorno mental

Ou psicológico pode crer?

A tal da esquizofrenia

Ansiedade é adoecer

E a danada da depressão

Essa veio pra enlouquecer


Se atentem aos sinais

Prováveis de perceber

Pra quando num amigo

Começarem aparecer

Tu ser logo prestativo

Fazendo desvanecer

Perceba quando a pessoa

Começar logo a dizer

Que não merece tá vivo

Nem tem razão pra viver

Sente que só atrapalha

Ou só faz aborrecer


Prefere o isolamento

Sem ninguém querer ver

Perdendo todo interesse

Naquilo que já deu prazer

Se sentindo rejeitado

Querendo desaparecer


Você pode se perguntar

Mas o que devo dizer

É nisso que tá o segredo

Vou fazer transparecer

Vc deve é escutar

E atenção oferecer

Cuidando uns dos outros

É possível reverter

O simples ato de ouvir

Serve pra restabelecer

Estreitando os laços

Só nos faz engrandecer


Sigo usando da arte

Pra sempre enaltecer

Cordel tbm é informação

Cultura de enriquecer

E revestido de amarelo

Pra juntos resplandecer.







Título: Setembro amarelo:)

Autoria: Sara1138



CRIANÇA, ADOLESCÊNCIA E DESIGUALDADE


Apesar de ser pouco divulgado ou debatido, a ideia do suicídio é comum na idade escolar e na adolescência, embora mais rara em crianças pequenas.  Tentativas de suicídio aumentam com a idade, sendo mais comuns durante a adolescência. Até os 6-7 anos, a criança se encontra na fase do pensamento pré-lógico, com predomínio do pensamento mágico e padrão próprio de percepção para simbolizar e conceituar o que vê, escuta, cheira e sente. A criança orienta seu pensar e seu agir pela consciência coletiva, ela se dissolve na comunidade, seu pensar não é “lógico”, mas subordinado à comunidade - o que é um fator de proteção, aliás, como todos os outros laços sociais.

Conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente, a criança é o indivíduo de até 12 anos de idade incompletos e o adolescente aquele entre 12 e 18 anos incompletos. A “condição” de adolescência pode se estender até os 21 anos, caso este jovem esteja cumprindo alguma medida socioeducativa. E, segundo o Estatuto da Juventude, a população jovem tem entre 15 e 29 anos.

É preciso atentar para violação de direitos de crianças e adolescentes no geral, considerando aqueles mais vulneráveis, como os jovens negros, indígenas e quilombola, ou com deficiência, lgbtqia+ e neurodivergentes. Numa sociedade como a nossa, marcada pela desigualdade profunda, só quem dita a norma pode se humanizar e desenvolver suas potencialidades. Por outro lado, quem está à margem tem sua experiência vital constrangida na e pela negação de si. O sofrimento étnico-político é relativo ao sentimento de não pertencimento à humanidade. Em oposição, nos sistemas culturais dos povos indígenas, o sentimento de ser pessoa, a concepção de humanidade é associada à concepção de animalidade, pautada em uma organização social ecológica e em uma divisão do trabalho baseado em complementaridades. 

O Brasil é signatário do “Plano de Ação sobre Saúde Mental” 2013-2020 da OMS que teve como meta - não atingida - a redução da taxa de suicídio em 10%. Ao contrário, ela aumentou. Sendo a terceira causa de morte de jovens, especialmente da juventude negra e indígena. 


A CADA 10 CRIANÇAS, ADOLESCENTES E JOVENS (10 A 29 ANOS) QUE COMETEM SUICÍDIO, 6 SÃO AUTODECLARADOS NEGROS E PARDOS.


A cartilha “Óbitos por Suicídio entre Adolescentes e Jovens Negros”, lançada pelo Ministério da Saúde, mostra que entre 2012 e 2016 o crescimento do número de casos com pessoas brancas permaneceu estável, enquanto o das negras aumentou ainda mais 12%. O levantamento do Ministério da Saúde revela não somente uma disparidade racial, como também a necessidade de políticas públicas mais eficientes para a população negra. 

Instituída em 2009, a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra visa garantir a equidade e efetividade das ações, mas somente 57 municípios brasileiros, dentre os mais de 5 mil existentes no país, colocaram em prática. É uma política importante, de caráter reparatório, que reconhece o racismo estrutural. Por ser integral significa que ela deve ser implementada em todas as esferas das instâncias do SUS, desde a atenção primária até a alta complexidade.

DICA  01: Hoje no Brasil, pensar o suicídio de crianças e adolescentes é uma atitude antirracista necessária para que a articulação de diferentes ações interseccionais não se reduza a uma simples política reparatória. É preciso o envolvimento e a colaboração das pessoas na construção de uma agenda civil competente para agir quando estiver lá ... “no meio do caminho”, antes que uma pessoa muito jovem possa se machucar gravemente.


 SUICÍDIO, VULNERABILIDADE SOCIAL E SAÚDE MENTAL


No contexto da saúde mental, há dois grupos de adolescentes que tentam se matar:


  1. O primeiro associado a comportamentos problemáticos como repetição da tentativa de suicídio, uso preocupante de drogas e pensamentos suicidas recentes. É um grupo de alto risco suicida. 


  1. O outro grupo não apresenta comportamentos problemáticos, mas sofre eventos estressantes como: morte de membros da família ou separação conflituosa dos pais. A tentativa de suicídio ocorreu ainda antes da puberdade, e na adolescência já não pensam em suicídio, constituindo um grupo de baixo risco. 



O suicídio se relaciona justamente com importante prejuízo na saúde mental da pessoa que o intenciona. Assim, adolescentes que fizeram tentativas de suicídio comparado a adolescentes depressivos tinham diferenças significativas. Os primeiros viviam mais frequentemente em diversas situações de violência (física e/ou sexual, separação conflituosa dos pais) e apresentavam estilo cognitivo que promove uma avaliação negativa dos eventos e da situação. Seus sintomas depressivos são caracterizados pelo isolamento social. Acredita-se que o comportamento suicida seja uma séria alternativa dentro de seus repertórios comportamentais, uma maneira psicológica do adolescente reagir ao cenário em que vive.




DICA 02:  As ações programáticas na forma de políticas públicas integradas e protetivas fortalecem a criança para que ela supere eventos estressantes.



PERSPECTIVAS FUNDAMENTAIS PARA A DISCUSSÃO


RELIGIÃO:

Na perspectiva religiosa a atitude da humanidade é orientada para o futuro; ou como expectativa de conquista para qual avançamos, ou a antecipação de algo determinado. As religiões judaico-cristãs enquadram-se no primeiro modo de perceber o futuro. A imortalidade é uma perspectiva futura que dinamiza o presente e atua sobre ele, uma vez que a qualidade de vida depois da morte vai depender das ações no aqui-agora.


PSICANÁLISE:

O Eu está ligado ao corpo e deve se preocupar em não se prejudicar, perder a saúde ou abandonar a busca.  Não devemos esquecer a orientação dada por Sigmund Freud de que a psicanálise, uma psicologia do Eu profundo, deve tomar a ciência como parceira na criação de uma visão de mundo.


MARX E DURKHEIM:

Para Marx no seu ensaio “Sobre o Suicídio”, é de grande valor a crítica social às condições da vida moderna, sobretudo às relações privadas de propriedade e às relações familiares – “em uma palavra, à vida privada”.  Em outras palavras:  entender que o privado é político. A sociedade burguesa se mostra como forma de vida “antinatural”, de modo que o suicídio surge como sintoma de uma sociedade doente que necessita uma transformação radical. A sociedade moderna, escreve Marx, é um deserto habitado por bestas selvagens. 


DICA 03: o ensaio de Marx sobre o suicídio desvela o patriarcado, a sujeição das mulheres e a natureza opressiva da família burguesa. É um rica compreensão das injustiças sociais da moderna sociedade burguesa e do sofrimento que suas estruturas familiares patriarcais infringem às mulheres. A imensa maioria dos casos de lesões autoprovocadas que chegam aos prontos-socorros é de mulheres, muitas delas mães.


Para as feministas comunitárias de Abya Ayala, “a vida plena só é possível pelo caminho da descolonização, trazendo para a centralidade da organização da vida a natureza, a espiritualidade ancestral, os conhecimentos tradicionais e as relações complementares entre homens e mulheres em suas expressões de sexualidade e gênero.” 


Cada indivíduo está isolado dos demais, numa espécie de solidão em massa.



As pessoas agem entre si como estranhas, numa relação de hostilidade mútua: nessa sociedade de luta e competição impiedosas, de guerra de todos contra todos, somente resta ao indivíduo: ser vítima ou carrasco. Eis, portanto, o contexto social que explica o desespero e o suicídio. Ao mencionar os males econômicos do capitalismo, que explicam muitos dos suicídios – os baixos salários, o desemprego, a miséria -, Peuchet ressalta as manifestações de injustiça social que não são diretamente econômicas, mas também dizem respeito à vida privada de indivíduos não proletários. 

Para Marx e também para Peuchet, a crítica da sociedade burguesa não pode se limitar à questão da exploração econômica – por mais importante que seja. Ela deve assumir um amplo caráter social e ético, incluindo todos os seus profundos múltiplos aspectos opressivos. 



A natureza desumana da sociedade capitalista fere os indivíduos das mais diversas origens sociais.




Mas então chegamos ao aspecto mais interessante do ensaio[4] : quem são as vítimas não proletárias levadas ao desespero e ao suicídio pela sociedade burguesa? As mulheres! O texto de Marx é uma das mais poderosas peças de acusação à opressão contra as mulheres. Três dos quatro casos de suicídio se referem a mulheres vítimas do patriarcado, da tirania familiar, uma forma de poder arbitrário que não foi derrubada pela Revolução Francesa. Entre elas, duas são mulheres “burguesas”, e a outra, de origem popular, filha de um alfaiate. Mas o destino delas foi selado mais pelo gênero do que por sua classe social.


Durkheim falava dos suicidas embrionários por negligência com a saúde, por imprudência. Diz ele: “...se considerarmos o conjunto dos suicídios de uma determinada sociedade durante uma unidade de tempo, constatamos que o total assim obtido não é a simples soma das unidades independentes, uma coleção de elementos, mas que constitui por si um fato novo e sui generis que possui sua individualidade, a sua natureza e que, além disso, tal natureza é eminentemente social.” (...) “cada sociedade tem portanto, em cada momento da sua história, uma aptidão definida para o suicídio” (...) “cada sociedade está predisposta a fornecer um determinado contingente de mortes voluntárias.” 


O suicídio varia em função inversa da integração da sociedade, do grau de integração doméstica e do grau de integração política. A individuação excessiva favorece o suicídio, assim como a individuação insuficiente: a prevalência do eu individual determina uma baixa tolerância às frustrações. Em certas sociedades, as pessoas se matam quando chega o limiar da velhice ou porque adoeceram; as mulheres por ocasião da morte do marido; servidores após a morte de seus líderes. É chamado suicídio altruísta. O terceiro tipo teria como determinante a anomia, ou o desregramento social, em que ocorre a perda dos limites e valores sociais preexistentes e antes que se estruture uma nova ordem.


DICA 04: Durkheim nos pede para “vislumbrar um fenômeno mais amplo e de natureza coletiva, em que a interação do indivíduo com o meio prevalece sobre as idiossincrasias pessoais, demonstrando de maneira incontestável a solidariedade entre um ato tão particular quanto é o suicídio e as condições gerais da coletividade na qual ele é perpetuado.”



Estamos falando também de um processo que envolve o cérebro, esse órgão com importante habilidade plástica que vamos decifrando aos poucos. Hoje sabemos que a descoberta para a sistemática de enfrentamento do drama humano só foi possível depois do desenvolvimento do self autobiográfico, momento em que a mente é capaz de guiar a deliberação reflexiva e reunir conhecimento. Há 20 mil anos, quando o self chegou à maturidade, surgiram os mitos para explicar a condição humana e suas ações, então foi possível elaborar as convenções sociais e criar as regras da moral. Depois disso, são criadas narrativas religiosas destinadas a explicar as razões do drama humano e a impor novas leis para mitigá-lo. A consciência reflexiva não só mudou a revelação da existência, mas também permitiu aos indivíduos conscientes começar a interpretar sua condição e a agir em função dela. O problema é que a loucura bagunça a política dos afetos, questionando as gramáticas estabelecidas do intrapsíquico com a sociedade.




          

POR UMA POLÍTICA INTEGRADA DE PREVENÇÃO AO SUICÍDIO NA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA


O suicídio entre crianças e adolescentes existe e não tem sido objeto de políticas específicas, apesar de nos últimos anos ser observado um aumento expressivo nas taxas de suicídio entre jovens de 15 a 19 anos de idade, em 40 anos (1950 a 1990), com um crescimento de até 300%. Entre 10 a 14 anos de idade, as taxas dobraram. Atualmente é a terceira principal causa de morte entre jovens de 10 a 24 anos, antecedida apenas por acidentes e homicídio.


Cada caso de suicídio repercute muito fortemente na vida de pelo menos 6 outras pessoas. 


Cada suicídio aumenta ainda mais o número de pessoas que vão em busca do atendimento dos profissionais da saúde mental. 


Ainda, a tentativa de autoextermínio é a principal causa de emergência psiquiátrica em hospitais. Para cada suicídio, temos 10 tentativas frequentemente sérias o suficiente para requerer atenção médica. 


O suicídio, problema de saúde pública de grandes proporções, tem se tornado ainda mais preocupante pelo seu crescimento entre jovens. Encontra-se entre as 10 principais causas de morte para todas as idades e entre 2 e 3 maiores causas entre 15 e 34 anos de idade. Na Dinamarca, em estudo durante um período de 15 anos, registrou-se que 1792 adolescentes haviam sido internados em serviços de psiquiatria. Destes, 1,7% das meninas e 2.2% dos meninos completaram suicídio em taxa de 145/100.000 e 110/100.000 para homens e mulheres, uma taxa muito superior a do Brasil. O grupo suicida tinha sintomas depressivos, mais dificuldade de aprendizado, pouco conforto consigo e autoestima. Ainda tinham menos respaldo dos pais e mais abusos por parte deles. Mais comumente tinham sofrido perdas sérias numa infância precoce com altos fatores estressantes. Esses autores criaram um modelo de avaliação de risco de suicídio, com detecção correta de 84% dos suicidas. Os critérios são: ser paciente psiquiátrico, com perdas sérias na infância e altos fatores estressantes e sintomas depressivos. Para este estudo, a maioria dos suicídios se dá em pacientes depressivos e o risco é maior até 3 meses após a alta hospitalar. 



FALAR SOBRE O PROJETO DE VIDA EM TODAS AS INSTÂNCIAS


Nas escolas e formação de profissionais, nos espaços de criação e desenvolvimento das artes, nas unidades de saúde envolvendo os trabalhadores destas instituições, alunos, familiares e usuários, bem como o monitoramento continuado (controle social) para verificar que as ações sejam efetivas e que os direitos sejam garantidos por meio de políticas públicas de qualidade, protetivas e integradas. Não há abordagem única que possa impactar por si só a questão. Há ainda quem indique intervenções estruturais que impeçam o acesso ao beiral de prédios, pontes e viadutos nas cidades. 


Em outubro de 2017 o Ministério da Saúde elaborou a cartilha “Suicídio. Saber, agir e prevenir” para orientar jornalistas na divulgação e abordagem de casos de suicídio. Algumas dicas são: não divulgar detalhes de como o suicida se matou, evitar a palavra suicídio em manchetes e chamadas, assim como termos valorativos, como “cometeu” suicídio. Sabemos que a arquitetura neural evolui sob condição de contato visual, toque e olfato. A interação feita pessoalmente oferece mais proximidade emocional e, na atualidade, estamos aprendendo a fazer isso nos ambientes virtuais e provavelmente teremos que repensar o papel da mídia.



O SUJEITO EM TRANSIÇÃO: ADOLESCÊNCIA E SUICÍDIO


A ansiedade pode ser um disparador do suicídio na adolescência? A adolescência é o período de transição nas capacidades cognitivas, emocionais e sociais, que tornam um sujeito "competente" para tomar uma atitude diante da “reprodução sexual”. Há uma grande transformação no funcionamento do cérebro conduzida por um programa executado pelo hipotálamo, o centro da regulação energética. Ele terá ação sobre 3 sistemas: o sistema de recompensa, remodelamento dos núcleos da base e amadurecimento do córtex pré-frontal.

O sistema de recompensa passa por grandes mudanças como gostos, vontades, impulsos, influenciando na competência para lidar com a vulnerabilidade a comportamentos de vício, transtornos de humor e a depressão. Os núcleos da base participam dos aprendizados de sequências motoras e o amadurecimento do córtex pré-frontal e dorso lateral são responsáveis pelo desenvolvimento do raciocínio abstrato e aprendizagem social. O amadurecimento é um conjunto de ferramentas cognitivas que habilita o sujeito a se tornar responsável, empático e a buscar sua inserção na sociedade. Os estudos indicam que a sociedade está cada vez menos solidária e que os jovens estão carentes de uma rede de apoio para superar os entraves desta fase da vida. Freud em seu artigo “Contribuições para uma discussão acerca do suicídio” (1910), diz que as escolas impelem seus alunos ao suicídio. A escola toma o lugar do adestramento, atualizando as situações traumáticas com que os adolescentes se defrontam em outros momentos da vida. 

Mas a escola secundária deve conseguir mais do que não impelir seus alunos ao suicídio. Ela deve lhes dar o desejo de viver e devia oferecer-lhes apoio e amparo numa época da vida em que as condições de seu desenvolvimento os compelem a afrouxar seus vínculos com a casa dos pais e com a família. 

Para Freud, as escolas falham nisso, e em muitos outros assuntos deixam de cumprir seu dever de proporcionar um substituto para a família e de despertar o interesse pela vida do mundo exterior. A escola nunca deve esquecer que ela tem de lidar com indivíduos imaturos a quem não pode ser negado o direito de se demorarem em certos estágios do desenvolvimento e mesmo em alguns um pouco desagradáveis. A escola não pode adjudicar-se o caráter da vida: ela não deve pretender ser mais do que uma maneira de vida. Como seria possível subjugar-se ao extraordinariamente poderoso instinto da vida: isto pode apenas acontecer com o auxílio de uma libido desiludida, ou se o ego pode renunciar à sua autopreservação, por seus próprios motivos egoístas. Pode ser que tenhamos deixado de responder a esta indagação psicológica porque não temos meios adequados para abordá-la. Podemos apenas tomar como nosso ponto de partida a condição da melancolia em comparação com o luto. As causas excitantes devidas a influências ambientais são, na medida em que podemos discerni-las, as mesmas para ambas as condições. 

Em “Luto e Melancolia” Freud lembra que o primeiro, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém. Em algumas pessoas, as mesmas influências produzem melancolia em vez de luto; por conseguinte, suspeitamos que essas pessoas possuem uma disposição patológica. Também vale a pena notar que, embora o luto envolva graves afastamentos daquilo que constitui a atitude normal para com a vida, jamais considerá-lo como sendo uma condição patológica, pois ele em geral é superado após um certo lapso de tempo.

Os traços distintivos da melancolia são um desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo, pela perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade, uma diminuição dos sentimentos de autoestima a ponto de encontrar expressão em autorrecriminação e autoenvilecimento, culminando numa expectativa delirante de punição. As medicações em psiquiatria a transformaram em uma especialidade ambulatorial. A situação dos pacientes com transtornos mentais melhorou em termos de qualidade de vida, produção profissional, manutenção e formação de laços afetivos e familiares, entretanto não tem sido competente para conter a escalada de tentativas de autoextermínio, que hoje sobrecarrega o atendimento nos hospitais gerais. 

Na avaliação de adolescentes com risco de suicídio e a gravidade deste comportamento é acessada através de conversas com perguntas muitas vezes indiretas sobre seu desejo de morte. Também são avaliados os planos para o futuro que aquele indivíduo é capaz de elaborar. Assim como em pessoas adultas, o comportamento suicida dos adolescentes geralmente é precedido por estressores psicossociais como conflitos familiares, términos de relacionamentos, bullying, violência sexual, dificuldades escolares, medidas socioeducativas ou problemas com a lei. Outro fator importante é que o consumo de álcool e drogas entre crianças e adolescentes tem se tornado cada vez mais frequente. A tentativa de suicídio não deve ser vista, portanto, como algo aleatório e sem sentido. Os adolescentes são uma população de risco para o suicídio pois estão sujeitos a uma maior sobrecarga emocional, principalmente quando se sentem excluídos de seu grupamento social e cultural. 



Um dos maiores fatores protetores é o sentimento de ser pertencente a alguma estrutura de sociabilidade e, nessa faixa etária, é muito fácil sentir-se excluído de todas elas por diversas razões.



Some-se a isto o fácil acesso aos conteúdos que lidam com a temática de forma muitas vezes leviana, como o recente episódio do jogo da baleia azul, ou ainda algumas séries que exploraram o tema. As mudanças de comportamento dos adolescentes podem ser muito sutis, mas ainda assim observáveis seja por familiares, professores ou outros profissionais com contato direto e frequente.




Saúde mental é o estado de bem-estar no qual uma pessoa percebe suas próprias capacidades, pode lidar com os estresses cotidianos, consegue se desenvolver e contribui para sua comunidade.  Sendo assim, é fundamental para nossa habilidade coletiva e individual de pensar, se emocionar, interagir uns com os outros, ganhar a vida e aproveitá-la. 






O DIREITO À SAÚDE MENTAL DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES


A dimensão universal dos direitos humanos significa que valem igualmente para todas as crianças e todos os adolescentes. Mas crianças e adolescentes têm alguns direitos humanos adicionais que respondem às suas necessidades e natureza específicas em termos de proteção e de desenvolvimento. Assim, os direitos garantem que crianças e adolescentes tenham seu desenvolvimento integral em todo seu potencial. Esses direitos são reafirmados no Estatuto da Criança e do Adolescente, orientado pelo paradigma da proteção integral, que considera a criança e o adolescente como sujeitos de direitos e como pessoas em condição peculiar de desenvolvimento, cujas prioridades compreendem:

 (a) a primazia de receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias;

 (b) a precedência de atendimento nos serviços públicos ou de relevância pública;

 (c) a preferência na formulação e na execução das políticas sociais públicas;

(d) a destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas relacionadas com a proteção à infância e à juventude. 


O Brasil é signatário dos tratados e das convenções sobre direitos humanos, reconhecidos no texto constitucional e nas medidas legislativas dele decorrentes. A Convenção dos Direitos da Criança (1989) foi promulgada pelo Decreto nº 99.710, de 21/11/1990 e ratificada por 196 países. A Convenção segue princípios da não discriminação, do melhor interesse da criança, do direito à vida, à sobrevivência e ao desenvolvimento - e do respeito à opinião. Defende, ainda, direitos fundamentais da criança, como direito à privacidade, direito de expressão e de manifestação de pensamento e direito à integridade física e moral.

Como queria Epicuro em sua carta sobre a felicidade: “que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse em fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito.” Se a palavra vacina foi eleita a principal palavra do ano de 2021, a saúde mental definitivamente entrou para o vocabulário das pessoas. 

Por isso, a proteção, promoção e restauração da saúde mental é uma preocupação vital presente no horizonte de planejamento das pessoas e comunidades por todo o mundo. Os fatores sociais, psicológicos e biológicos, determinam o nível da saúde mental, que pode ficar prejudicada nas situações estressantes, por doença física, estilo de vida pouco saudável, nas situações de discriminação e exclusão social, inclusive ser refém das violações de direitos humanos.

Podemos chamar de saúde mental o estado de bem estar no qual a pessoa é capaz de usar suas próprias habilidades, recuperar-se do stress rotineiro, ser produtiva e contribuir com sua comunidade. Ou seja, ter equilíbrio emocional interno competente para lidar com as exigências externas. Entretanto, no Brasil o quadro geral não é muito animador: 3% da população necessita dos cuidados permanentes; 9% da população circula pelas diversas terapias; 10% da população acima de 12 anos está envolvida com uso regular de substância; 24% da população consome fármacos.


DICA 05: os profissionais da saúde mental defendem a importância de tornar os transtornos mentais um assunto mais presente e cotidiano na sociedade. A emergência da covid em 2020 e o estresse gerado pela exigência do isolamento e de cuidados salientou essa necessidade. A depressão é crescente e disputa a posição de principal responsável pelo afastamento do trabalho. Sabe-se que sempre que há demora na identificação do problema, o transtorno pode se agravar. Conversar é a melhor maneira de trocar informações para enfrentar as inseguranças, desesperanças e outros sofrimentos. A superação não está dada à partida para ninguém, ela precisa ser construída.

VIOLÊNCIAS CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES


Os números da violência no Brasil


Crianças e adolescentes são submetidos a uma série de violências evidenciando uma situação de alta vulnerabilidade e provocando impactos em sua saúde mental. O estudo da Unicef de 2016 a 2020 reúne uma análise inédita dos dados de violência letal e sexual contra crianças e adolescentes de até 19 anos no país, compilando as informações de ocorrências das polícias e de autoridades de segurança pública das 27 unidades da Federação. O estudo identifica 34.918 mortes violentas intencionais de crianças e adolescentes no país nesse intervalo de tempo – portanto, uma média de 6.970 mortes por ano ao longo dos últimos cinco anos. A grande maioria das vítimas são adolescentes – em mais de 31 mil desses casos, as vítimas estavam na faixa etária entre 15 e 19 anos. Essa constatação não deve ocultar que foram identificadas nesse período pelo menos 1.070 de crianças de até 9 anos de idade: em 2020, foram 213 mortes violentas intencionais nessa faixa etária.

As crianças morrem em decorrência de crimes com características de violência doméstica, enquanto as mortes de adolescentes são predominantemente caracterizadas por elementos da violência armada urbana. Mas, em todos os casos, o predomínio é de meninos negros. Embora sejam fenômenos complementares e simultâneos, é crucial entendê-los também em suas diferenças, para desenhar apropriadamente políticas públicas e outras respostas. A morte de quase 1,1 mil crianças de menos de 9 anos de idade entre 2016 e 2020 chama a atenção – é um número alto, que com frequência acaba ocultado em meio aos números ainda mais altos da violência contra adolescentes. E há um aumento no número de vítimas de 0 a 4 anos, que ocorre ao mesmo tempo em que as mortes violentas nas outras faixas etárias diminuem.


O ano de 2020 foi o período em que a pandemia de covid-19 impôs medidas mais restritivas à circulação de pessoas. As restrições fizeram com que os órgãos públicos também tivessem alterações em horários e dias de funcionamento. Além disso, as pessoas tiveram mais receio de circular, utilizar transporte público, etc. Essa combinação resultou na redução nos registros de Boletins de Ocorrência para diversos tipos de violência. Além disso, com a maioria das escolas operando apenas virtualmente, crianças e adolescentes deixaram de frequentar o principal espaço em que, usualmente, têm contato com adultos fora do círculo familiar. A violência sexual é um fenômeno predominantemente doméstico e, portanto, não é possível descartar a hipótese de que teria havido uma diminuição dos casos reportados, independentemente do que ocorreu de fato.


Conforme os dados de Boletins de Ocorrência de 2019 e 2020 com vítimas de 0 a 19 anos de idade, houve redução de números absolutos de estupros; no entanto, em relação ao total de cada ano, houve em 2020 um aumento da proporção de vítimas de faixas etárias mais baixas. Essas variações não ocorreram em relação ao sexo da vítima. Porém, ao analisar pela raça/cor, vê-se que vem aumentando a proporção de vítimas negras em todas as faixas etárias, mesmo que a distribuição ainda seja mais igualitária do que aquela observada nos crimes letais. E, por fim, ainda que não apresentem qualidade suficiente para realizar afirmações sobre oscilações no local do crime, os dados permitem identificar aumento proporcional de crimes causados por desconhecidos nas faixas etárias de 0 a 14 anos, enquanto aumentou a proporção de crimes por conhecidos quando as vítimas tinham entre 15 e 19 anos. 



Para prevenir e responder à violência, é importante garantir que crianças e adolescentes tenham acesso à informação, conheçam seus direitos, saibam identificar diferentes formas de violência e pedir ajuda.




O PAPEL DA REDE DE PROTEÇÃO E QUAIS SÃO SEUS ALERTAS!


O assunto suicídio deve ser trazido e tratado sem tabus, da mesma forma que se abordaria o tema das doenças sexualmente transmissíveis. Não se pode esperar que a criança ou adolescente traga espontaneamente estas ideias, que aparecerão apenas quando indagadas e se ele se sentir seguro para falar sobre elas.


Um mito muito comum é o de que, se indagado sobre o assunto, o indivíduo aí sim passaria a pensar sobre o suicídio - o que não é verdade. Uma vez questionado, ele apenas se sentirá mais à vontade de falar sobre o tema e desta forma a prevenção será mais efetiva. Não é só a família que deve estar preparada para lidar com este assunto. As escolas e seus professores também têm a função e responsabilidade de fornecer o ambiente acolhedor para estas discussões ocorrerem de forma espontânea. Uma vez identificado o risco, esta pessoa, se encaminhada corretamente, tem grandes chances de se recuperar.

Podemos elencar alguns fatores de risco: 80% dos adolescentes apresentam algum transtorno mental no momento do suicídio e em 50% deles o transtorno já está presente há pelo menos 2 anos. Há também fatores cognitivos que indicam risco para uma primeira tentativa ou recorrência do comportamento suicida. São elas: a desesperança, menor potencial para geração de soluções alternativas para situações problemáticas interpessoais e menor flexibilidade para enfrentar situações problemáticas. Ainda há frequente associação com quadros depressivos de longa duração, impulsividade, violência sexual, fracasso escolar quando os pais são muito rigorosos, mudanças sociais abruptas e acesso facilitado às armas de fogo.



A REDE DE SAÚDE PROTETIVA[5] 


Na cidade de São Paulo, há uma rede de saúde protetiva que está regulamentada pela Portaria conjunta SGM/SMADS/SME/SMS/SMDHC nº 21, de 29/12/2020, que institui e detalha o fluxo integrado de atenção à criança e ao adolescente, instituindo as redes de proteção e integração das políticas setoriais e mobilizando no sentido da garantia de direitos de forma a enfrentar violações e vulnerabilidade sociais das crianças e adolescentes vítimas de violência. A Portaria estabelece o fluxo de alerta de situações com agravos que exigem atenção, cuidados e atendimentos específicos para atingir sua superação, integrando as várias políticas públicas. 


As situações de violência podem entrar no fluxo integrado por diversas portas da rede de proteção intersetorial e, ainda pode ser acionada por meio de denúncia, sistema de justiça e conselhos tutelares. Destaca-se que os profissionais envolvidos no sistema de garantia de direitos das crianças e adolescentes não devem revitimizar a criança ou adolescente, dando preferência à abordagem de questionamentos mínimos e estritamente necessários, conforme escuta especializada e também padronizar os encaminhamentos entre os diversos equipamentos envolvidos.







O QUE FAZER?!


Além das dicas apresentadas, lembramos que na pandemia, vimos a emergência de muitas pessoas buscando os serviços e profissionais de Saúde Mental para se informar sobre a situação atual, para se tratar quando estavam sofrendo e desenvolvendo estratégias para enfrentar as turbulências. De toda maneira, as melhores dicas continuam sendo:

- alimentação, convívio social, descanso, lazer e higiene pessoal são necessidades básicas que não podem ser esquecidas; 

- mesmo que de forma digital, procure manter contato com os conhecidos, conhecer novas pessoas e fazer exercícios físicos;

- praticar atividades prazerosas como ouvir música, podcasts e dançar. 

- fazer arte com as mãos, desenhar, pintar, esculpir com argila ou barro;

- escutar com empatia – acolher;

- restrição de acesso arquitetônico – barreira protetora em beiradas e viadutos;

- procurar a ajuda de profissionais DA REDE DE SAÚDE MENTAL DE SEU MUNICÍPIO ou os CAPs.



ESTRATÉGIAS


Guardar para si decepções, anseios e esperanças pode contribuir para o adoecimento. Conversar mais sobre essas questões, também com quem está à nossa volta, pode contribuir para desenvolver uma atitude mais leve e mais consciente com respeito à vida. Fazer com que as pessoas reflitam sobre as questões que nunca haviam pensado, que enxerguem suas próprias atitudes sob outras perspectivas.

Há sofrimentos que podem ser prevenidos. Dores podem ser evitadas. Violências podem ser impedidas, cuidadas e reparadas. Exemplos podem ser partilhados e ensinamentos sobre maturidade emocional devem ser divulgados.



Para os profissionais da rede de proteção:

O que não fazer?

- julgar ou criticar

- opinar, dar sermão 

- bendizer o sofrimento que a pessoa enfrenta 

- falar frases de incentivo.


E SIM:

- acompanhar a pessoa 

- escutar com empatia – acolher 

- informar-se sobre suicídio e transtornos mentais                                                                                           

                                          





Indicação[6]  de leitura


Livros sobre suicídio

Sobre o Suicídio, Karl Marx. Ed Boitempo, São Paulo 2006.

Suicídio-entre a razão e a loucura, Feijó M. Ed Lemos, São Paulo 1998.


Estatísticas e análises

Saúde Mental: Suicídio na Infância e Adolescência, https://crianca.mppr.mp.br/ 2022

Mortalidade por Suicídio e Notificações de Lesões Autoprovocadas no Brasil, Boletim Epidemiológico, Secretaria de Vigilância em Saúde. MS vol. 52 set 2021

Suicídio no Brasil, https://pt.wikipedia 2020.

Suicídio Indígena no Brasil, https//pepsic.bvsalud.org/pdf 2022.


Apoio e escuta

Cartilha FFLCH PELA VIDA, fflchpelavida.fflch.usp.br 2021.

Pode Falar, um canal anônimo de escuta, destinado a adolescentes e jovens de 13 a 24 anos. www.podefalar.org.br 2022.


Políticas públicas

Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, 2006. www.arca.fiocruz.br

Fluxo Integrado de Atenção à Criança e ao Adolescente Vítima de Violência, Portaria Conjunta SGM/SME/SMS/SMADS/SMDHC, https://www.sinesp.org.br, 2020.

Estatuto da Igualdade Racial, 2010. https://pt.wikipedia. Org


Notícias e reportagens

Jovens Negros são maioria em casos de suicídio no Brasil. www.cartacapital.com.br 2020.

Altamira enfrenta um aumento avassalador de suicídio de adolescentes. https://brasil.elpais.com/sociedade  2020.

Saúde Mental: por que tantos jovens adoecem, https://outraspalavras.net 2022.

Surto coletivo acomete 26 alunos em Recife, https://revistaforum.com.br 2022.

Especialistas falam sobre os desafios no cuidado de jovens e adolescentes, https://portal.fiocruz.br/notícia 2022.


Sobre violência contra crianças e adolescentes

Panorama da violência letal e sexual contra crianças e adolescentes no Brasil, https://unicef.org/brasil 2022.

































Desenhos:

Jhully e Aly

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