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Como Vai Você, Geração Antimanicomial?

Dra. Júlia Catunda

  • Como vai você, geração Antimanicomial?

  • Júlia Catunda

  • Palavra-chave: clínica ampliada, clínica antimanicomial, delirante, reabilitação psicossocial, dasdoida, transversalidade

  • Clínica Ampliada

  • Entre nós, desde os anos oitenta, mais e mais equipes de trabalhadores de Saúde Mental se envolveram no planejamento das ações da sua clínica para deixar de executar tarefas bizarras no atendimento da clientela (internação de longo prazo, choque insulínico, cadeira rotatória, coquetel medicamentoso, contenção mecânica, etc.). No Brasil e no mundo a Psiquiatria estava em franca agitação, pois que nos anos 60 o psiquiatra Thomas Szasz (O Mito da Doença Mental) introduziu uma dimensão incontornável à prática médica: não há “doença mental”, há Transtorno, Disfunção. O que há é um sujeito com problema pessoal. Desde então, ao antigo diagnóstico médico realizado a partir da análise das funções mentais (memória, pensamento, atenção, humor, afetividade, juízo, personalidade, vontade, sono e sonho), veio sobrepor-se o diagnóstico estatístico (decorrente dos dados obtidos das vítimas da guerra), importante ferramenta diagnóstica da atualidade, o Manual Diagnóstico Estatístico, o DSM que está na 5ª edição que nos trouxe ao atual Código Internacional de Doenças (CID), 10ª edição. 

  • A consciência é um fenômeno privado. Sabemos dela por nossa auto análise e por nossa propensão de analisar os outros. Através de tomografia por emissão de pósitrons (PET) e ressonância magnética funcional, medida da condução elétrica da pele, alteração de potencial elétrico do couro cabeludo ou na superfície cortical, é notável a possibilidade de estabelecer encadeamentos complexos entre mente privada, comportamento público e função cerebral. Os avanços da neurociência podem trazer indicadores mais precisos para as intervenções terapêuticas, mas ainda hoje, a psiquiatria é especialidade médica que carece de marcadores biológicos. 

  • Desde a segunda guerra mundial, quando as casas de internamento foram abandonadas ao léu e as pessoas que lá estavam não se mostraram mais perigosas ou loucas do que as que viviam do lado de fora, foi o momento em que o Modelo Asilar deixou de ser a escolha de tratamento. Entre nós, o projeto inicial para desativar os manicômios previa que os atendimentos fossem ambulatoriais, seguindo o modelo aplicado às outras especialidades médicas (cardiologia, ortopedia, etc.). Logo percebeu-se que o atendimento em consultas não era competente para o atendimento da clientela delirante, além do que, Nise da Silveira já vinha experimentado outro modelo, com sucesso na Casa das Palmeiras – e que existe ainda hoje em Botafogo. Ela criou um ambiente de sociabilidade, para egressos dos hospitais psiquiátricos com oficinas de artesanato, pintura, contação de histórias que funciona apenas no período vespertino. Daí a inspiração para os atuais CAPS: clínica a um só tempo rigorosa na abordagem dos cuidados de saúde, aberta ao mundo. Para a professora Ana Maria Fernandes Pitta: “Reabilitação Psicossocial implica numa ética de solidariedade que facilite aos sujeitos com limitações para os afazeres cotidianos, decorrentes de transtornos mentais” (Reabilitação Psicossocial, Hucitec, 1996), escreveu a sanitarista que criou o primeiro Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). Quer dizer que além do atendimento medicamentoso ou psicoterápico, faz parte da clínica ampliada as atividades de sociabilidade: projetos de geração de renda, beleza, passeios, desfiles, Tai-chi, treinar para e realizar competições esportivas, exposição de arte, desenhar, fazer cinema, literatura, cortar papel. 

  • “No seu sentido instrumental, a Reabilitação Psicossocial representa um conjunto de meios (programas e serviços) que se desenvolvem para facilitar a vida de pessoas com problemas severos e persistentes de Saúde Mental. Seria o processo de facilitar ao indivíduo com limitações, a restauração no melhor nível possível de autonomia de exercício de suas funções na comunidade, enfatizando as partes sadias e a totalidade de potenciais do indivíduo, mediante abordagem ajustada às demandas singulares e cada situação de modo personalizado” (Reabilitação Psicossocial, org. Ana Pitta, Hucitec, 1996). As equipes passam a ser compostas por médicos, psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros e auxiliares, terapeutas ocupacionais, arte, fisio e fonoterapeutas. Pronto, foi instalada a Clínica Ampliada, uma equipe convocada a criar estratégias originais para o enfrentamento do adoecimento atravessando as diferentes ações e instâncias do Sistema Único de Saúde, o SUS. 

  • Modelo que rapidamente se espraiou para atenção básica. Muitas doenças têm início em situações de violência e processos difíceis como o luto, o desemprego, a prisão de parente, etc. É importante, nesses casos, que a equipe de saúde tenha uma boa capacidade de escuta e diálogo, já que parte da cura ou da melhora depende de o sujeito aprender formas menos danosas de lidar com as situações agressivas. Ainda bem que a vida é mais ampla e muitos são os meios e recursos que ela encontra para se manter. O risco de "medicalizar a vida" é diminuir a autonomia, aumentar a dependência ou a resistência ao tratamento, produzindo uma sucessão interminável de consultas, exames e procedimentos que se tornam o centro da existência. A Clínica Ampliada é uma clínica contemporânea implicada na criação de estratégias de promoção e produção de saúde para o enfrentamento do adoecimento. Ela é decorrência do HumanizaSUS, uma política que atravessa as diferentes ações e instâncias do Sistema Único de Saúde (SUS) agindo em diferentes níveis e dimensões da atenção e da gestão, apostando que a produção de saúde passa pela inovação das práticas gerenciais, ou seja, que modos de produzir saúde e de gerir os processos de trabalho são indissociáveis. A humanização propõe para os diferentes coletivos e equipes o desafio de superar limites e experimentar novas formas de organização dos serviços de modo a inovar a produção e circulação de poder. Como atravessa as diferentes instâncias do SUS, opera segundo o princípio da transversalidade por que entende que a produção de saúde passa necessariamente pela produção de subjetividade. Trata-se de política construída a partir de possibilidades e experiências concretas que devem ser aprimoradas, multiplicadas e divulgadas.


  • Estima-se que 20% dos atendimentos na Saúde são de Saúde Mental, sendo que 3% da população necessitam cuidados contínuos em saúde mental em função de transtornos severos e persistentes (psicoses, neuroses graves, transtornos de humor graves, deficiência mental com grave dificuldade de adaptação). A magnitude do problema (no Brasil, cerca de 40 milhões de pessoas) exige uma rede de cuidados densa, diversificada e efetiva. Transtornos graves associados ao consumo de álcool e outras drogas atingem pelo 12% da população acima de 12 anos, sendo o impacto do álcool dez vezes maior que o do conjunto das drogas ilícitas e em 2016 são 370 mil usuários de crack no país. (Epidemiologia dos Transtornos Mentais Jair de Jesus Mari & Miguel Roberto Jorge, 2011)


  • Clínica Antimanicomial

  • Em qualquer lado do espectro político que se examine, será possível observar a presença de um consenso sobre o papel do indivíduo na formação da sociedade, embora cada lado o expresse de um modo antagônico ao outro. 

  • De acordo com a esquerda política, o indivíduo deve renunciar à sua soberania em prol do poder do Estado. Do ponto de vista da direita, o indivíduo deve se submeter à repressão enriquecida. Nos dois casos a perda de soberania individual é enorme. Os autoritários encaram essa perda como positiva – o Estado beneficiente proporciona ao indivíduo segurança e ordem em troca de sua obediência, enquanto elementos radicais vêm essa perda como negativa, já que o indivíduo é forçado a viver uma existência alienante de consciência fragmentada. Por isso, as diferenças entre os dois pontos de vista são provenientes de suas interpretações antagônicas desse ato de renúncia. As questões da soberania e da autodeterminação são os problemas enfrentados na criação da Rede de Atenção Psicossocial: em contraposição à clausura pura e simples, o enfrentamento do problema da liberdade.    

  • Como já dissemos, nos anos 60 o tratamento psiquiátrico se orienta no sentido da clínica antimanicomial, seguindo a desconstrução de Thomas Szasz no 'O Mito da Doença Mental' e Michel Foucault, na História da Loucura. Ambos autores insistem no fato de que as pessoas com transtorno mental não têm doenças médicas e sim comportamentos desviantes da média, problemas produzidos pelo diktat social (a biopolítica, controladora da mente pela disciplinarização do corpo), e que estas pessoas precisam de parceiros e estratégias para solucionar estes problemas. Esta discussão está no “Caminhos Para a Desinstitucionalização no Estado de São Paulo – censo de 2014”, publicado pela Fundap, que lembra quais foram as principais linhas teóricas que estabeleceram a reforma psiquiátrica e as classifica em três grupos:

  • 1- o de reformulação da gestão do hospital psiquiátrico e suas técnicas de tratamento, como a Comunidade Terapêutica (Maxwell Jones) e a Psicoterapia Institucional (François Tosquelles e Jean Oury); responsáveis pela criação da RAPS entre nós.

  • 2- o desmonte do modelo asilar com a criação do modelo substitutivos, com a Psiquiatria de Setor (Lucien Bonnafé) e a Psiquiatria Preventiva ou Saúde Mental Comunitária (Gerald Caplan), como o projeto atual de equipamentos que fazem parte da RAPS: os Caps, Ceccos, etc.

  • 3- o de crítica radical e ruptura ao funcionamento asilar e da reestruturação dos serviços propostos, por considerar um novo projeto de medicalização e normalização da sociedade, por meio da Antipsiquiatria (Ronald Laing e David Cooper) e da Psiquiatria Democrática Italiana (Franco Basaglia). Há vários experimentos do Ministério da Saúde, tais como a Oficina Loucos pela Diversidade - (http://www.cultura.gov.br/politicas5/-asset_publisher/WORBGxCla6bB/content/da-diversidade-da-loucura-a-identidade-da-cultura/10913).

  • Estas diretrizes serviram para a criação dos serviços substitutivos  de clínica antimanicomial para superar a barbárie do asilo e nos forneceu instrumentos para enfrentar o problema da articulação e integração dos pontos de rede de saúde no território, qualificando o cuidado por meio do acolhimento, do acompanhamento contínuo e da atenção às urgências. A Rede de Atenção psicossocial (RAPS), tem como objetivo ampliar o acesso à atenção psicossocial da população em geral.

  • Treinamento para a técnica- O trabalho neste campo não é possível sem o domínio da técnica de realizar entrevistas, atributo que qualifica especificamente o profissional habilidoso. Segundo Paulo Dalgalarrondo (Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais), psiquiatra torna-se alguém com perícia do campo das relações interpessoais. Perícia em realizar entrevistas que sejam realmente úteis, pelas informações que fornecem e pelos efeitos terapêuticos que exercem sobre a clientela. A técnica e a habilidade em realizar entrevistas é um atributo fundamental e insubstituível do profissional de saúde. É em parte adquirida, em parte intuitiva, patrimônio da personalidade e sensibilidade imaginativa dos profissionais. Memória, sensopercepção, consciência do eu, vontade, afetividade, etc. são construtos aproximativos da psicologia que permitem uma comunicação mais fácil e um entendimento melhor dos fatos. Nas síndromes psiquiátricas não se trata apenas de agrupamentos de sintomas que coexistem com regularidade. Os sintomas que os compõem são ligados estruturalmente entre si.

  • A psicopatologia é uma tradição clínica, fundamentalmente na vivência daquilo que é decorrente do contato com pacientes enigmáticos (quase todos), os quais desafiam nosso conhecimento, desencadeia a “angústia da clínica” ou, mais precisamente, a “angústia da dúvida clínica”, é que esta ciência pode se realizar plenamente. A semiologia é a base, o pilar fundamental da atividade clínica. Saber observar com cuidado, olhar e enxergar, ouvir e interpretar o que se diz, saber pensar, desenvolver um raciocínio clínico crítico e acurado são as capacidades essenciais do profissional de saúde. 

  • A avaliação do paciente em psicopatologia é feita principalmente por meio de entrevista, juntamente com a observação cuidadosa do paciente. Se for realizada com arte e técnica, o profissional poderá obter informações valiosas para o conhecimento da dinâmica afetiva do cliente, favorecendo a melhor abordagem. Extrair um conhecimento relevante do encontro com o cliente, e neste encontro agir de forma útil e criativa; dois eixos básicos da prática profissional em Saúde Mental. 

  • Delirante 

  • Delirar é palavra de origem latina, significa desviar-se, como um arado que se desvia da sua linha prevista. Assim é o delírio, um pensamento que se desvia do habitual, do esperado, e são estas derivas e extravios do pensamento delirante que fazem dele uma das mais eficazes ferramentas do self para questionar as certezas estabelecidas.

  • Que maravilha seria descobrir onde e quando o self robusto surgiu na mente e começou a gerar a revolução biológica chamada cultura. Mas, apesar das investigações feitas pelos que interpretam e datam os registros humanos sobreviventes no tempo – a Antropologia, não temos condição de responder a tais questões. Temos certeza de que o amadurecimento do self ocorreu de um modo lento e gradual, mas irregular, e que o processo aconteceu em várias partes do mundo, não necessariamente ao mesmo tempo. No entanto, sabemos que nossos ancestrais humanos mais diretos andavam pela terra há cerca de 200 mil anos, e que por volta de 30 mil anos atrás humanos estavam criando pinturas e esculturas, entalhando em rocha, fundindo metais, confeccionando jóias e possivelmente, fazendo música. A data suposta para a caverna de Chauvet, é 32 mil anos, 17 mil para Lascaux, uma espécie de Capela Sistina com centenas de pinturas complexas. Temos aí uma mente capaz de processar símbolos. Os cemitérios também têm dezenas de milhares de anos, indicando tratamento especial para os mortos. Já havia preocupação explícita com a vida, de interpretá-la e atribuir-lhe valor emocional e intelectual. 

  • O desenvolvimento da escrita tem 5 mil anos e os poemas homéricos 3 mil, indicando um self autobiográfico robusto. A medida que se acumulam conhecimento sobre os humanos e sobre o universo, a contínua reflexão pode muito bem ter alterado a estrutura do self autobiográfico e conduzido a uma coesão maior dos aspectos relativamente separados do processamento mental; a coordenação da atividade cerebral, impelida primeiro pelo valor e depois pela razão, teria funcionado vantajosamente para nós. Seja como for, o self capaz de rebeldia que imagino é avanço recente da ordem de milhares de anos, um mero instante no tempo evolucionário. Esse self recorre a características que o cérebro humano adquiriu, muito provavelmente, durante o longo período do Pleistoceno. Ele depende da capacidade cerebral de manter registros expansíveis de memória não só de habilidades motoras, mas também de fatos e eventos, em particular fatos e eventos pessoais, aqueles que compõe o andaime da biografia, da pessoalidade e da identidade individual. Esse self rebelde depende da capacidade de reconstituir e manipular registros de memória em um espaço de trabalho no cérebro paralelo ao espaço perceptual, uma área de armazenamento off line onde o tempo pode ser suspenso brevemente e as decisões podem ficar livres da tirania das respostas imediatas. Ele depende da capacidade cerebral de criar não só representações mentais que imitem a realidade de maneira fiel e mimética, mas também representações que simbolizem ações, objetos e indivíduos. O self rebelde depende da atividade cerebral para comunicar estados mentais, especialmente estados de sentimentos, por meio de gestos do corpo e das mãos, e também pela voz, na forma de tons musicais e linguagem verbal. Por fim ele depende da invenção de sistemas de memória externos, paralelos aos existentes em cada cérebro, como as representações pictóricas encontradas nas primeiras pinturas, entalhes e esculturas, etc.

  • Tão logo o self autobiográfico se torna capaz de funcionar com base em conhecimento gravados nos circuitos cerebrais em registros externos na pedra, argila ou papel, os humanos adquirem o poder de atrelar suas necessidades biológicas individuais à sabedoria acumulada. Assim tem início um longo processo de indagação, reflexão e resposta, encontrada em toda história humana: mitos, religiões, artes, estruturas governamentais. A moralidade construída, os sistemas de justiça, a economia, a política, a ciência e a tecnologia. A consciência ocorre graças à memória. É uma memória adquirida através de um filtro de valor biológico e animada pelo raciocínio. 

  • As consequências do self capaz de reflexão: imagine os seres humanos de épocas remotas, algum tempo depois que a linguagem verbal se estabeleceu como meio de comunicação. Imagine indivíduos conscientes cujo cérebro era dotado de muitas capacidades que encontramos nos humanos que buscavam as coisas que buscamos: alimento, sexo, abrigo, segurança, dignidade, etc. nesse ambiente, a competição por recursos era um problema dominante, os conflitos podiam ser abundantes e a cooperação era essencial. Recompensa, punição e aprendizado orientavam o comportamento desses indivíduos. Suponhamos que eles possuíam um conjunto de emoções semelhantes às nossas: apego, nojo, medo, tristeza. Emoções que governam a sociabilidade, como confiança, vergonha, compaixão, desprezo, orgulho. Deviam também ser curiosos sobre o meio físico e sobre os outros seres vivos. Estudos de tribos no século XX mostram que também tinham curiosidade sobre si e contavam histórias sobre suas origens e destinos. Os humanos de antigamente sentiam afeição e apego por outros indivíduos com quem criavam laços, e sentiam pesar quando esses laços fossem rompidos. Também viveram e testemunharam alegria, e satisfação nas atividades coletivas para obter comida. 

  • Essa descoberta para sistemática de enfrentamento do drama humano só foi possível depois do desenvolvimento da mente com self autobiográfico capaz de guiar a deliberação reflexiva e reunir conhecimento. É bem possível que desde sempre tenhamos especulado sobre a posição que ocupamos no universo – de onde?, para onde? – como uma obsessão. Momento que o self rebelde chega à maturidade. Surgem os mitos para explicar a condição humana e suas ações, elaboram convenções sociais e regras da moralidade, quando são criadas narrativas religiosas destinadas a explicar as razões do drama e impor novas leis para tentar mitigá-lo. A consciência reflexiva não só melhorou a revelação da existência, mas também permitiu a indivíduos conscientes começar a interpretar sua condição e a agir em função dela.

  • O motor desses avanços culturais é, desde Freud, a necessidade. Impulso homeostático, responde a biologia. De uma forma ou de outra, os avanços homeostáticos manifestam o mesmo objetivo que a forma da homeostase automática. Sempre que um desequilíbrio é detectado, procuram corrigi-lo nos limites da biologia e do ambiente físico. Leis e regras sociais e o desenvolvimento do sistema de justiça constituem uma resposta à detecção de desequilíbrios causados por comportamentos sociais que põem os indivíduos e os grupos em risco. A contribuição dos sistemas econômicos e políticos, o desenvolvimento da medicina, são respostas funcionais encontradas no espaço social que demandam correção nos limites desse espaço para que não venham a comprometer a regulação da vida dos indivíduos pertencentes ao grupo. Os desequilíbrios definidos por parâmetros sociais e culturais, são detectados no nível elevado da mente consciente, ocorrem na estratosfera do cérebro, a homeostase sociocultural. No nível neural, começa no nível cortical, embora as reações emocionais ao desequilíbrio também acionem a homeostase básica, indicando que a regulação da vida no cérebro é híbrida: acima, abaixo, de novo acima, em curso oscilatório que flerta frequentemente com o caos, mas o evita por um triz. A reflexão consciente e o planejamento da ação introduzem novas possibilidades no governo da vida acima da homeostase automatizada, uma sensacional novidade da fisiologia. A reflexão consciente que pode questionar e modular a homeostase automática visando bem-estar e sobrevivência. O bem-estar tornou-se uma ativa motivação das ações humanas; a homeostase sociocultural adicionou-se como uma nova camada funcional de gestão da vida, mas a homeostase biológica permaneceu.

  • Armados com a reflexão consciente, os organismos cujo design evolucionário pautava-se pela regulação da vida e pela tendência ao equilíbrio homeostático inventaram formas de consolação para quem sofria, de recompensa para quem ajudava os sofredores, de injunção para quem prejudicava os outros, normas de comportamento destinadas a prevenir o mal e promover o bem, com uma mistura de punições e prevenções, de penalidades e louvações. O problema de como tornar essa sabedoria compreensível, transmissível, persuasiva, imponível – em suma, de conseguir que fosse acabada – foi enfrentado, e encontrou-se a solução: contar histórias. Isso é algo que os cérebros fazem de modo natural e implícito. Contar histórias implicitamente criou nosso self, e não é surpreendente que essa prática seja encontrada em todas as sociedades e culturas humanas. Também não deve surpreender que as narrativas socioculturais tenham tomado sua autoridade de empréstimo a seres místicos supostamente dotados de mais poder e mais conhecimento que os humanos, seres cuja existência explicava todos os tipos de sofrimento e cuja atividade tinha a capacidade de oferecer socorro e modificar o futuro e exercem fascínio sobre a mente humana.

  • Na estrutura delirante, a demanda homeostática não consciente está no comando e só pode ser combatida por uma força oposta bem treinada, apoiada pelos neurolépticos que disputam os receptores de dopamina. Spinoza parece ter tido a ideia certa quando disse que uma emoção com consequências negativas só pode ser contrabalançada por outra emoção mais poderosa. O mecanismo não consciente tem de ser treinado pela mente consciente para desferir um bom contra-golpe emocional, nos ensina o neurocientista Antônio Damasio. (E o cérebro criou o homem, Compania das Letras, 2009)

  • Do mesmo modo, a epidemia de dependência de drogas tem relação com as pressões da homeostase. Diariamente nos deparamos com frustrações e dificuldades que nos fazem sentir mal-estar. As drogas alteram a imagem sentida que o cérebro está formando de seu corpo naquele momento; o desequilíbrio homeostático é neuralmente representado por paisagem corporal obstruída. Certas drogas induzem o cérebro a representar um organismo funcionando com mais suavidade.

  • Reabilitação psicossocial 


  • Entre nós no Brasil, desde que nos assumimos Antimanicomiais, fizemos ser previsto na lei 10.216 de 06 de abril de 2001 que a Reabilitação Psicossocial visa o processo de facilitar, de favorecer ao indivíduo com limitação - com necessidades especiais, a restauração no melhor nível possível de autonomia do exercício de suas funções na comunidade. Esse processo enfatiza as partes mais sadias e a totalidade potencial do indivíduo, mediante uma abordagem compreensiva e um suporte vocacional, ajustando as demandas singulares de cada um e cada situação de modo personalizado. 

  • Demanda singular se refere ao fato de que há uma necessidade que aceita uma resposta sob medida para aquela subjetividade. Responder como uma costureira quando faz uma roupa sob medida. 

  • Isso certamente ocorre a nível de neurônio, pois um aspecto fundamental do aprendizado é o fortalecimento de sinapses. A força se traduz em facilidade de disparo e, portanto, ajuda a ativação dos neurônios seguintes da cadeia. A memória depende desse funcionamento. O que sabemos sobre a base neural da memória devemos às ideias pioneiras de Donald Hebb, que em meados do século XX aventou que o aprendizado depende do fortalecimento de sinapses e da facilitação dos disparos dos neurônios subsequentes. 

  • Os 100 bilhões de neurônios do cérebro humano se organizam em circuitos e há 2 variedades arquitetônicas: os núcleos e as seções. Os núcleos contêm “know-how”. Seus circuitos incorporam conhecimentos sobre como agir ou o que fazer quando certas mensagens ativam o núcleo. Também são indispensáveis para administrar a vida em cérebros como os nossos quando fazem a gestão do metabolismo, respostas viscerais, emoções, atividade sexual, sentimentos e aspectos da consciência. Estão fortemente ligados ao funcionamento dos núcleos, os sistemas endócrino e imunológico e especialmente nossa vida afetiva. Entretanto, em humanos, boa parte do funcionamento dos núcleos está sob a influência da mente, o que significa a influência – que não é total – do córtex cerebral. Uma seção de córtex cerebral contém neurônios dispostos em bainhas de superfície bidimensional empilhadas em camadas. Muitas dessas camadas apresentam excelente organização topográfica.

  • Um dado importante é que as regiões definidas por núcleos e seções de córtex cerebral são interligadas formando circuitos em escalas cada vez maiores. Numerosas seções de córtex cerebral estabelecem interconexões interativas, mas cada seção se conecta a núcleos subcorticais. Ás vezes uma seção de córtex recebe sinais de um núcleo, outras vezes envia sinais. Significativas são as interações com a miríade de núcleos do tálamo e com os gânglios basais. 

  • Em resumo, os circuitos neurais constituem regiões corticais quando se dispõem em bainhas que se empilham em camadas paralelas como um bolo, ou constituem núcleos quando seu agrupamento não se dá em camadas. Tanto a região cortical como os núcleos são interligados por “projeções” axônicas formando sistemas que se complexificam em sistemas de sistemas. O sistema nervoso tem divisões centrais e periféricas. O principal componente do sistema nervoso central é o cérebro, com 2 hemisférios unidos pelo corpo caloso. Os hemisférios são cobertos pelo córtex cerebral e sob o córtex existem os gânglios basais, o prosencéfalo, a amigdala e o diencéfalo. Abaixo, localiza-se o tronco cerebral e o cerebelo. O sistema nervoso central está ligado ao corpo todo pelo sistema nervoso periférico. Um dos mais antigos é o sistema nervoso autônomo, cujo funcionamento nos escapa o controle, mas que é responsável pela regulação da vida e das emoções e sentimentos. A idade evolucionária dos núcleos é antiga, remonta à época da vida em que cérebros inteiros não passavam de cadeias de gânglios enfileirados. Gânglios é um núcleo individual; vitais para regulação da vida e para geração da consciência. 

  • Os córtices cerebrais distinguem-se pela estrutura bidimensional em formato de bainha que dá a alguns deles a capacidade de criar mapas detalhados. A contribuição que cada uma dada região pode dar ao funcionamento global do cérebro depende significativamente de suas parceiras: as que falam com ela e aquelas com as quais ela também fala; especificamente, quais regiões projetam seus neurônios para região X (e assim modificam o estado da região X) e quais regiões recebem projeções da região X (portanto são modificadas por ela). Muito depende da posição de X na rede. Possuir ou não a capacidade de criar mapas é outro fator importante no papel do funcionamento da região X. 

  • A mente e o comportamento resultam do funcionamento a cada instante de galáxias de núcleos e porções corticais, articuladas por projeções neurais convergentes e divergentes. Se as galáxias forem organizadas e trabalharem em harmonia, seu possuidor pode fazer poesia. Do contrário, pode enlouquecer. 

  • Sobre a organização destas galáxias vamos em busca de Felix Guattari que expandiu o conceito de self da biologia para a política ao tratar da Produção de Subjetividade. Vejamos o que ele nos diz: “O pensamento clássico mantinha a alma afastada da matéria e a essência do sujeito afastada das engrenagens corporais. Os marxistas, por sua vez, opunham as superestruturas subjetivas às relações de produção infra-estruturais”. Como falar da produção de subjetividade hoje? Segundo ele, uma primeira constatação nos leva a reconhecer que os conteúdos da subjetividade dependem, cada vez mais, de uma infinidade se sistemas maquínicos. “Nesse campo de opinião, de pensamento, de imagem, de afectos, de narratividade não se pode, daqui para frente, ter a pretensão de escapar à influência invasiva da ‘assistência por computador’, dos bancos de dados, da Telemática. Vivemos uma multiplicação de ângulos de abordagem antropológica e uma mestiçagem planetária de culturas, paradoxalmente contemporânea da ascensão de particularismos e racismos; uma imensa extensão de campos de investigação tecno-científicas e estéticas evoluindo num contexto de moral de insipidez e desencanto”. A dependência do humano das máquinas se deve ao fato delas serem formas hiperconcentradas e hiperdesenvolvidas da parte da subjetividade que não polariza em relação de dominação de poder. 

  • O encontro das proposições terapêuticas nos equipamentos da Rede de Atenção Psicossocial pretende injetar a criatividade e a invenção de mundos - sempre presente na psicose, nas inovações necessárias para a organização da vida. Isso pode ser especialmente eficaz para as pessoas com necessidades especiais. São estas pessoas que se beneficiam imenso com o desenvolvimento de tecnologias. Mac Luhan, estudioso da comunicação, define mass media como qualquer tecnologia que crie extensões ao corpo e aos sentidos humano; do vestuário ao computador. Ele explica os efeitos destas extensões: primeiro a tecnologia acelera os processos e deprecia o anterior para então recuperar o que estava obsoleto e por fim reverter sobre si próprio. Depois, em 4 de outubro de 1957, quando o Sputinik foi colocado em órbita, nosso planeta ficou envolvido numa placenta; a Natureza terminou e o mundo se transformou numa forma artística que precisa ser programada; a arte deixou de ser um luxo para se tornar uma necessidade. A outra forma de conceber a arte é considerar que o ser humano é um robot que atua por servo-mecanismo; o artista com sua obra choca este humano e faz com que ele reaja e se afaste da condição de robot. Humanos sem arte são robots. A função dos artistas é nos ensinar a nos relacionar com o meio ambiente criado pelos humanos. O artista é quem se apercebe das alterações que os novos mass media produziram nos humanos, é quem compreende que o futuro é agora; é o artista que utiliza seu trabalho para preparar as bases para a transformação. O meio muda nossos sentidos e nossa capacidade de percepção. É preciso uma sociedade livre da fragmentação e da alienação da era mecânica. Nosso planeta precisa se transformar numa forma artística onde o humano esteja unido à harmonia cósmica que transcende o tempo e o espaço.

  • A Dasdoida (www.dasdoida.com.br) se desenvolve como tecnologia de reabilitação psicossocial, tratamento no convívio com o diferente que atua no campo de confluência da psiquiatria, terapia ocupacional, comunicação, serviço público, loucura e arte. Trata-se de tecnologia cultural desenvolvida a partir do atendimento de portadores de transtornos mentais graves. A partir do nosso ponto de vista, profissionais e ativistas psi, descobrimos a importância de um certo grau de anormalidade na constituição das subjetividades contemporâneas. A loucura engendra derivas, ruídos na comunicação, instala defeitos no ordenamento vertical e horizontal da sociedade em rede; são estes bugs do programa que geram a transversalidade, relação de equilíbrio instável entre vertentes de convívio inovadoras e as formas regressivas baseadas na violência. 


  • Acreditamos que, escutar as doideiras que nos habitam, dar uma expressão à loucura que é só nossa, conduz ao desenvolvimento das tecnologias de si mesmo, à produção de saúde mental. As nossas manias, inquietudes, medos e esquisitices são a parte mais importante da subjetividade, quer dizer, a piração pode nos fornecer uma verdadeira estilística da existência, uma forma de ser e estar no mundo divertida, aberta a novos sentidos e possibilidades. 


  • A Dasdoida vem realizando parcerias em vários serviços e equipamentos de Saúde Mental desde a década de 90. Com o município de Carapicuíba tem como projeto assessorar o grupo condutor da RAPS do núcleo de saúde mental da Secretaria de Saúde e Medicina Preventiva e capacitar profissionais das áreas afins (funcionários da saúde mental, arte terapeutas e etc.) A complexidade que envolve o trabalho das equipes de saúde mental, que lidam com o sofrimento psíquico exige criação e arranjos que extrapolam a formação acadêmica. Para se obter avanços relacionados a criação de novos modelos de atenção e tecnologia em saúde mental é necessário a retroalimentação constante através de grupos de discussão e cuidados, supervisão, capacitação e etc. A clínica da psicose obriga ao terapeuta poder ser transformada por ela. “Quem determina como e quando deve ser acolhido, é aquele que sofre o vazio da experiência psicótica. Um lugar de acolhida e participação deverá ter a flexibilidade construída pelas relações pessoais e pela criatividade. A experimentação constante com linguagens, é uma das formas de acesso a esse outro lado do sintoma – a permanente reconstrução”. (Lula Wanderley, artista e psiquiatra)


  • Transversalidade 

  • Propostas para atravessar as obstruções inerentes a cada tipo de organização ou equipamento construído para o enfrentamento do estado delirante, estabelecendo rotas facilitadoras e canais de diálogo que permitam o funcionamento da rede. Entendemos que a criação do instrumento que permita a compreensão transversal que a Saúde Mental demanda, é preciso que os trabalhadores sejam treinados para estabelecer duas estratégias de funcionamento; uma local e uma sistêmica.

  • 1-local

  • Saúde Mental, Beleza & Coisa &Tal é um piloto de gestão criado em Carapicuíba para acionar a RAPS - rede dos equipamento de atenção psicossocial existentes (Caps, Ubs, Srt), juntamente com a sociedade civil organizada, visando ampliar o alcance destes equipamentos bem como favorecer a intersetorialidade, atuando de modo transversal ao ajustar as interfaces operativas presente na literatura da Saúde Mental, inspirada na necessidades de se criar novos espaços de existência da proposição 'Experimentar o Experi-mental' de Hélio Oiticica. Por fim, como está em funcionando desde maio de 2015, o convênio entre a Prefeitura de Carapicuíba e a Associação Projeto Oficina (APO) se inicia apresentando os sabonetes perfumados PIRAÍ. As oficinas que produzem os sabonetes são vespertinas, conforme orientação de Nise da Silveira para o funcionamento dos grupos com psicóticos na Casa das Palmeiras. 

  • As atividades de reabilitação psicossocial são realizadas por funcionários da Saúde Mental, arte-terapeutas e munícipes, uma ação transversal cujo encontro favorece as conexões entre os equipamentos de Atenção Psicossocial estabelecendo sentidos para a circulação dos usuários nos dispositivos da RAPS. A Dasdoida desenvolve estratégias de economia criativa, geração de renda, economia solidária e assessora o Grupo Condutor da RAPS da Secretaria de Saúde & Medicina Preventiva de Carapicuíba. Esse projeto acontece na Associação Projeto Oficina, organização não governamental situada na Cohab II que desde 2004 realiza oficinas de trabalho apoiado para pessoas com deficiência intelectual. Esta associação de proposições pretende injetar a criatividade sempre lá da psicose nas inovações necessárias para a organização de vida, especialmente para as pessoas com necessidades especiais.

  • Desde a década de 80, sucessivas gerações de trabalhadores de Saúde Mental compõem a Luta Antimanicomial, pensando coisas muito diversas, mas concordando e estabelecendo que a internação psiquiátrica não é recurso de tratamento para as pessoas com deficiência intelectual, transtorno mental e/ou problemas com álcool e outras drogas. É recurso coercitivo que deve ser usado com extrema parcimônia e em hospital geral - sempre - evitando a ação predatória. Deste modo, tomamos para nós comunidade antimanicomial, a tarefa de formular dispositivos substitutivos aos manicômios que respondam às necessidades da clientela que frequenta os equipamentos da RAPS.

  • Muito antes disso, Osório César no Juquery e Nise da Silveira no Rio de Janeiro obtiveram sucesso ao propor a produção de imagens para o enfrentamento da clausura mental. Mais recentemente a neurociência nos informa que sobrevivência do ser vivo depende dele encontrar e incorporar fontes de energia e de prevenir todos os tipos de situações que ameaçam a integridade dos tecidos vivos. Para isso, são necessárias ações orientadas para as quais o cérebro produz mapas (imagens). Sabemos que ações eficazes requerem o uso de imagens que nos permitam escolher dentre um repertório de padrões de ação previamente disponível e otimizar a execução da escolha; selecionar a opção apropriada, recusar as inconvenientes; inventar novas ações para situações inéditas; fazer planos para futuras. A criatividade do organismo depende da sua capacidade de transformar, combinar imagens e da forma como se apropria delas.


  • 2- sistêmica

  • Caps IV.org, a rede dentro/fora no território

  • A ideia deste curso é divulgar nossa rede de cuidados em Saúde Mental implicada em estabelecer uma rede de deriva para nossos clientes delirantes na grande São Paulo: o capsIV.org. Trabalhadores de saúde mental, são indivíduos e grupos cujo cérebro deu-lhes a capacidade de inventar ou usar as narrativas para fazer melhoras e si mesmos e à sociedade em que viviam tornaram-se bem-sucedidos o bastante para que as características dessa arquitetura cerebral fossem selecionadas, individualmente ou no âmbito de todo o grupo, e para que a frequência delas aumentasse no decorrer das gerações. 

  • Nessa ideia de que existem duas amplas classes de homeostase, a básica e a sociocultural, não se deve interpretar que esta última é uma construção puramente “cultural”, enquanto a primeira é “biológica”. Biologia e cultura são amplamente comunicativas e interativas. A homeostase sociocultural é moldada pelo funcionamento de muitas mentes cujos cérebros foram construídos de certo modo sob a orientação de genomas específicos. Curiosamente, existem evidências cada vez mais numerosas de que os avanços culturais podem conduzir a profundas modificações de genoma humano. Por exemplo, a invenção da lacticultura e a disponibilidade de leite na dieta levou a mudança nos genes que permitem a tolerância à lactose.

  • O mesmo impulso homeostático que moldou o desenvolvimento mitos e religiões, esteve por trás do surgimento das artes, ajudado pela curiosidade intelectual. Se a ne necessidade de gerir a vida foi uma das razões do surgimento da música, dança, pintura e escultura, então a capacidade de melhorar a comunicação e organizar a vida social foram duas fortes razões e deram às artes um poder adicional de permanência.

  • Feche os olhos por um instante e imagine os seres humanos em tempos remotos, talvez antes da linguagem, mas já com mente e consciência, equipados de emoções e sentimentos, cientes de que é estar alegre ou triste, em perigo ou em segurança, ganhar ou perder, sentir prazer ou dor. Imagine como expressariam esses estados dos quais tinham consciência. Talvez entoassem gritos de perigo ou de saudação, de reunião, alegria, de pesar. Imagina se recorressem à percussão, ou à flauta de osso, para produzir encantamento, divertir!

  • Ao nascerem artes como a música, dança e a pintura, provavelmente as pessoas tencionavam informar sobre ameaças e oportunidades, sobre sua própria tristeza ou alegria, sobre moldagem do comportamento social. Contudo, paralelamente à comunicação, as artes teriam também produzido uma compensação homeostática. Os sons possuíam acentos naturais, e os acentos podiam ter relações no tempo. Podiam criar ritmos, e certos ritmos podiam gerar prazer. A poesia tornou-se possível, e essa técnica encontrou, por fim, modos de influenciar a prática da música e da dança. 

  • As artes só puderam surgir depois de os cérebros terem adquirido certas características mentais que decerto se estabeleceram no decorrer de um longo período evolucionário, no Pleistoceno. Há muitos exemplos dessas características. Entre elas estão a reação emocional de prazer com a visão de certas formas e pigmentos naturais mas também aplicáveis a objetos feitos pelo homem e à decoração do corpo; a reação de prazer a determinada característica de som relacionado ao timbre, ao tom e a afinidade com os ritmos. O mesmo vale para reação emotiva a certos tipos de organização espacial e a paisagens que incluem vastos panoramas  

  • A arte pode ter começado como um expediente homeostático para o artista e os que desfrutassem de sua arte, e também como um meio de comunicação. Por fim, tanto para o artista como para sua plateia, os usos diversificaram-se. A arte passou a ser meio privilegiado de trocar informações a respeito de fatos e emoções considerados importantes para os indivíduos e a sociedade, como demonstram os poemas épicos, o teatro e as esculturas de tempos remotos. Também se transformou em um modo de induzir emoções e sentimentos alentadores, e nisso a música sobressai em todas as épocas. Igualmente importante, a arte tornou-se uma maneira de explorar a própria mente e a dos outros, uma maneira de ensaiar aspectos específicos da vida e um modo de exercitar juízos morais e ações morais. Em última análise, porque as artes possuem raízes profundas na biologia e no corpo humano, mas podem levá-los aos níveis superiores de pensamento e sentimento, elas tornaram o caminho para o refinamento homeostático que as pessoas idealizaram e que anseiam por alcançar, o equivalente biológico da dimensão espiritual nos assuntos humanos.

  • Em suma, as artes prevaleceram na evolução por terem valor para a sobrevivência e contribuírem para o desenvolvimento da noção de bem-estar. Elas ajudaram a dar coesão aos grupos sociais e a promover a organização social, auxiliaram na comunicação, compensaram desequilíbrios emocionais decorrente do medo, raiva, desejo, tristeza. Provavelmente, também inauguram o longo processo de criar os registros externos da vida cultural, como sugeridos por Chauvet e Lascaux.

  • Dizem que a arte sobreviveu porque tornava os artistas mais atraentes para o sexo oposto; quem pensar em Picasso há de sorri e concordar. Mas provavelmente só por seu valor terapêutico as artes já teriam prevalecido.

  • As artes foram uma compensação imperfeita para o sofrimento humano, para a felicidade não alcançada, para a inocência   perdida, mas ainda assim alguma compensação elas trouxeram e ainda trazem, como um consolo diante das calamidades provocadas pela natureza e do mal causado por nós. Elas são uma das maravilhosas dádivas da consciência humana.

  • E qual é a suprema dádiva da consciência à humanidade? Talvez a capacidade de navegar pelo futuro nos mares de nossa imaginação, de conduzir o navio do self a um porto seguro e produtivo. Essa dádiva extraordinária depende, mais uma vez, do encontro do self com a memória. Temperada com sentimentos pessoais, é a memória que permite ao homem e à mulher, imaginar seu bem-estar individual e o bem-estar global da sociedade, inventar modos e recursos para alcançar ampliar esse bem-estar. É a memória que incessantemente situamos o self no evanescente agora, entre um passado já visto e um futuro antevisto, oscilando sempre entre os ontens que ficaram para trás e os amanhãs que não passam de possibilidades. O futuro nos empurra à frente, de um ponto distante e fugidio, e os anima a prosseguir viagem no presente. 

  • Como disse T.S. Elliot:

  • “O tempo passado e o futuro,

  • o que poderia ter sido e o que foi,

  • aludem a um só fim,

  • é sempre presente.”